Por Jamil Chade

Compra de votos, chantagem, criação de dossiê e até a morte. 25 anos depois dos ataques contra os EUA por parte de terroristas, a constatação de observadores internacionais é de que não foram apenas as Torres Gêmeas que desabaram. Naquele dia 11 de setembro de 2001, ainda que ninguém ousasse saber o destino do mundo, inaugurou-se um novo período de ingerência dos EUA na diplomacia internacional.
Atacado em seu próprio território, o governo norte-americano se deu o direito de invadir, destituir, sequestrar e desmontar qualquer instituição que pudesse significar uma ameaça aos seus interesses. 
Gestos que até hoje ecoam pelo mundo e que transformaram para sempre regiões inteiras do planeta e abalaram a soberania de países. 
A década de 1990 havia sido de esperança. A ONU voltava a funcionar e o Conselho de Segurança era convocado a agir, finalmente. Mas o que parecia ser a exuberância do sistema multilateral escondia, na realidade, um fervor por parte dos EUA de manter um mundo à sua imagem e semelhança. E com a Casa Branca como o polo da hegemonia global. 
Mas bastou um teste para que a máscara da cooperação internacional fosse retirada. Os EUA nunca estiveram dispostos a dividir o poder e, machucado em seu orgulho a partir de 2001, iniciaram uma ofensiva para fazer valer sua visão de mundo e suas ambições.
O Iraque passou a entrar no radar e, com ele, o argumento espúrio das armas químicas. Derrubar o ditador Saddam Hussein era uma questão de honra, e de petróleo. Mas o argumento era frágil e logo uma das agências internacionais – a Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq) – alertou que poderia fazer a vistoria da suposta existência dessas armas.
Washington não gostou nada da ideia. Afinal, se houvesse um caminho diplomático, o principal argumento para a guerra estaria enterrado. George W. Bush decidiu que era hora de calar a Opaq e seu diretor, o brasileiro José Maurício Bustani. 
Lembro-me de desembarcar em Haia em abril de 2002, sede da entidade, e encontrar uma instituição no epicentro de um conflito de enormes proporções. 
Bustani, que estava no comando da Opaq desde 1997 e tinha sido reeleito por unanimidade, insistia que sua instituição tinha informações de que as armas químicas do Iraque haviam sido destruídas após a Guerra do Golfo de 1991. Além disso, a entidade dizia que o Iraque “não tinha capacidade” para repor os estoques graças às sanções sob as quais tinha sido submetido por uma década.
Ele precisaria cair e mensagens chegaram até o brasileiro, sugerindo que ele deixasse o cargo, sem alarde. Seria hipocritamente aplaudido se renunciasse. Ele não aceitou. John Bolton, que comandava parte do esforço diplomático de Bush e que tinha em sua mesa uma granada, orquestrou, assim, uma campanha contra o brasileiro. Seu argumento para derrubá-lo: “má-gestão”. 

José Maurício Bustani foi chefe e diretor geral do Departamento de Organismos Internacionais do Ministério das Relações Exteriores nos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso

Em sua sala em Haia, atrás de um quadro, foi descoberto um sistema de escutas. Bustani sabia que seu destino estaria vinculado com uma guerra muito mais ampla que sua dimensão como diplomata. 
No dia 21 de abril de 2002, a pedido dos EUA, foi realizada uma reunião especial da Opaq para votar seu afastamento. Nas semanas anteriores ao encontro, países que estavam com sua anuidade atrasada na instituição fizeram os pagamentos para poder ter direito ao voto. Alguns chegaram com dinheiro vivo, despertando a desconfiança de que a Casa Branca estaria pagando pelos votos. 
Ao final de um rápido encontro, 48 países se manifestaram a favor de seu afastamento, com sete contra e 43 abstenções. Anos depois, nos tribunais da OIT, Bustani seria recompensado por uma decisão que determinou que seu afastamento havia ocorrido sem justificativa. Mas, para os EUA, isso pouco importava. A estátua de Saddam já estava derrubada e o sequestro de um organismo internacional era realidade. 
EUA agiram para Vieira de Mello ir para Iraque e em investigação contra Kofi Annan
Não demorou para que um segundo abalo transformasse a ONU. Preocupada com o destino do Oriente Médio depois da queda de Bagdá, a entidade aceitou o papel de reconstruir o Iraque. Bush tinha chamado ao Salão Oval o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, uma espécie de bombeiro das Nações Unidas para as crises mais impossíveis. 
A Casa Branca o queria no comando do escritório da entidade no Iraque, inclusive para dar legitimidade à nova etapa. Tanto o diplomata brasileiro quanto o secretário-geral Kofi Annan hesitaram em assumir o papel. Mas, sob pressão do maior doador do sistema internacional, cederam. 
O brasileiro seria, então, enviado ao front em 2003, como representante oficial do Secretário-geral das Nações Unidas no Iraque. Mas insistia que não via a ONU como parte das “potências ocupantes”. Numa entrevista concedida a este repórter no dia 17 de agosto daquele ano, Vieira de Mello afirmava que não estava com medo e que a instituição era vista como uma aliada dos iraquianos. Criticou os EUA e admitiu que a população local estava sendo humilhada. “Imagine como nós, brasileiros, nos sentiríamos com tanques estrangeiros em Copacabana”, disse.  
Dois dias depois, em 19 de agosto de 2003, uma bomba colocada num caminhão no muro do escritório da ONU em Bagdá tiraria a vida do brasileiro e de mais 20 pessoas. 
Sob os escombros estava o fim de uma utopia.

Militares dos EUA posicionam bandeira da ONU sobre o caixão de Sergio Vieira de Mello, vítima de atentado em Bagdá

O alvo não era mais apenas os EUA, mas todos aqueles que pudessem ser vistos como cúmplices. A ONU vivia o fim de sua era da inocência com uma explosão que ainda reverbera pelos corredores da entidade. 
Ao não conseguir evitar a guerra no Iraque e diante da morte de seus funcionários e de um de seus melhores amigos, Annan declarou em setembro de 2004 que a ofensiva norte-americana era “ilegal”.
O comentário foi considerado como uma afronta em Washington e, imediatamente, a Casa Branca iniciou um processo para também silenciar o chefe das Nações Unidas. Para isso, retirou das gavetas da CIA um dossiê que revelava corrupção em programas da ONU e que envolvia até mesmo o filho de Annan. Paralisado, o secretário-geral apenas teve de assistir o desmonte do direito internacional e a marginalização de sua própria instituição. 
Annan ficou tão abalado pela crise que mergulhou em uma depressão. Ficou sem voz, literalmente. Começou a faltar a reuniões importantes e deu fortes sinais de que pretendia abandonar o cargo de maior liderança da diplomacia mundial. Afônico por motivos emocionais, um dos poucos homens que poderia frear o desmonte das leis internacionais havia sido silenciado. 
A crise de credibilidade que a ONU enfrenta hoje é a mais séria em seus mais de 80 anos. Mas foi, a partir de 11 de setembro de 2001 que começou a ruir o sonho de um organismo internacional capaz de manter a paz no mundo.