SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Nos últimos dias, funcionários americanos bateram de porta em porta na capital da Groenlândia, Nuuk, na tentativa de encontrar um morador disposto a receber a segunda-dama dos Estados Unidos, Usha Vance -em vão, segundo a dinamarquesa TV 2.
De acordo com o gabinete de Usha, ela visitaria a ilha para “aprender sobre o patrimônio” da região. “Em todos os lugares, a resposta foi a mesma: ‘Não, obrigado'”, disse Jesper Steinmetz, correspondente da emissora, que revelou a história nesta quarta-feira (26). O veículo atribui recentes mudanças de planos na viagem à rejeição da população.
A ideia inicial era que Usha passasse por pontos históricos e participasse de Avannaata Qimussersu, a tradicional corrida nacional de trenós puxados por cães. “A Sra. Vance e a delegação estão animados para testemunhar esta corrida monumental e celebrar a cultura e a unidade da Groenlândia”, disse seu gabinete em um comunicado, na semana passada.
Protestos contra a visita e, segundo a TV 2, o fracasso em encontrar quem recebesse a segunda-dama, no entanto, fizeram o governo de Donald Trump, que repetidamente tem ameaçado tomar a ilha, mudar os planos. Agora, o vice-presidente americano, J. D. Vance, e sua esposa devem apenas visitar a base americana de Pituffik, no norte do território.
O novo cronograma deve poupar o casal de ser recebido com protestos -nas últimas semanas, manifestantes organizaram alguns dos maiores atos já vistos na ilha. No fim de janeiro, uma pesquisa encomendada pelo jornal dinamarquês Berlingske e pela publicação groenlandesa Sermitsiaq apontou que 85% da população local (a ilha tem 57 mil habitantes) não querem fazer parte dos EUA.
Outra possível razão para a alteração da agenda é a pressão da Dinamarca. A intenção de comparecer à corrida de trenó abriu uma disputa diplomática entre Washington e Copenhague, que acolheu a decisão final de cancelar os planos -para o ministro das Relações Exteriores dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, a mudança representou uma desescalada da situação.
Nesta quinta-feira (27), a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, elogiou a população groenlandesa por demonstrar resiliência diante das investidas dos EUA.
“A atenção é esmagadora e a pressão é grande, mas é em momentos como estes que vocês mostram do que são feitos”, escreveu Frederiksen no Facebook. “Vocês não se intimidaram. Vocês defenderam quem são -e mostraram pelo que lutam. Isso tem o meu mais profundo respeito.”
A fala ocorre um dia após Trump reiterar seu desejo de adquirir a ilha. “Precisamos da Groenlândia para a segurança nacional e internacional. Então, acho que vamos tão longe quanto for necessário. Precisamos da Groenlândia e o mundo precisa que tenhamos a Groenlândia, incluindo a Dinamarca”, disse Trump a jornalistas no Salão Oval, na Casa Branca. Mais cedo, em entrevista ao podcaster Vince Coglianese, declarou que a população local tem de ser convencida sobre a necessidade da anexação. “Odeio dizer isto, mas vamos ter de tomar posse deste vasto território ártico.”
O ministro da Defesa dinamarquês, Troels Lund Poulsen, criticou as declarações do republicano. “Essas declarações sobre um aliado próximo não são adequadas para o presidente dos EUA”, disse ele a jornalistas em Copenhague, nesta quinta. “Preciso falar claramente contra o que vejo como uma escalada por parte dos americanos.”