(FOLHAPRESS) – Enquanto atacam rebeldes apoiados por Teerã no Iêmen e fazem contagem regressiva para o ultimato dado por Donald Trump para que o Irã negocie um acordo sobre seu programa nuclear, os Estados Unidos iniciaram uma concentração rara de recursos militares para pressionar os rivais no Oriente Médio.

 

Nos últimos dias, três “bombardeiros invisíveis” B-2 Spirit chegaram a Diego Garcia, a principal base americana no oceano Índico, e mais dois estão a caminho, segundo dados públicos de controle de tráfego aéreo. Relatos não confirmados falam em mais duas aeronaves.

Se forem apenas as cinco confirmadas, isso representa 25% da frota do avião furtivo ao radar, daí seu apelido. Ele é 1 dos 2 empregados pelos EUA para ataques nucleares, mas já foi amplamente utilizado em combate convencional. Além disso, estão no atol ao menos três cargueiros gigantes C-17 e dez aviões-tanque KC-135.

Para completar, segundo relatou o site Politico, o Departamento de Defesa determinou a extensão da permanência do grupo de porta-aviões centrado no USS Harry Truman no mar Vermelho e o envio de uma segunda frota do tipo, liderada pelo USS Carl Vinson.

Os EUA só usam dois grupos de porta-aviões no Oriente Médio em momentos de crise, como na eclosão da guerra entre Israel e o Hamas em 2023, quando o fizeram para dissuadir o Irã de entrar no conflito ao lado dos palestinos.

É muito poder de fogo. Só de modernos F/A-18 Super Hornet, os dois grupos levam 110 aeronaves -muito mais poderosas do que os 240 caças e aviões de ataque do Irã, por exemplo. Em uma conta conservadora, suas escoltas podem disparar até 800 mísseis contra rivais.

Tudo isso desenha para Teerã a ameaça de uma guerra, que já vem sendo travada de forma indireta desde que Trump resolveu ampliar os ataques aos houthis. Os rebeldes, que dominam desde 2014 partes vitais do oeste do Iêmen, são apoiados pelos iranianos.

Eles entraram na guerra entre Israel e o Hamas, iniciada com o ataque dos palestinos em 7 de outubro de 2023, em apoio aos terroristas. Eles empregam um vasto arsenal de mísseis e drones eventualmente contra o Estado judeu, mas de forma primária no mar Vermelho, onde dizem atacar aliados de Tel Aviv.

O resultado foi a disrupção do tráfego marítimo por lá e o aumento do custo de transporte -que já foi até cinco vezes maior do que antes do começo da guerra, e agora está em torno do dobro. EUA, Reino Unido e outros países enviaram forças para combatê-los.

Apesar de os houthis terem acompanhado o cessar-fogo ora rompido por Israel em Gaza, Trump prometeu esmagar sua liderança, que respondeu de forma desafiadora.

Ao mesmo tempo, o americano ligou diretamente sua ação ao Irã, o patrono dos houthis e de grupos como o Hamas e Hezbollah libanês, ambos bastante trucidados nas guerras do 7 de Outubro. O objetivo de Trump é fazer com que Teerã aceite um novo acordo para congelar seu programa nuclear.

Os aiatolás estão próximos de ter a bomba nuclear, segundo avaliação da Agência Internacional de Energia Atômica, tendo capacidades para enriquecimento para grau militar provadas. Analistas estimam que, se decidir ir em frente, o Irã já tem material para talvez quatro ogivas em poucos meses de trabalho.

No começo deste mês, Trump enviou uma carta ao líder supremo iraniano, Ali Khamenei, dando um prazo de dois meses para que o país persa aceite negociações. O aiatolá rejeitou o ultimato, levando à escalada militar contra os houthis e, agora, à ameaça pouco sutil à teocracia de Teerã.

Em 2018, durante seu primeiro mandato, o republicano retirou os EUA do acordo nuclear assinado em 2015 para coibir Teerã de buscar a bomba. Retomou sanções econômicas e até matou o principal general do país, em um ataque no Iraque. Dali em diante, o Irã passou a violar abertamente as restrições do arranjo.

O prazo dado por Trump expira, tecnicamente, em 1º de maio. Até lá, deve apertar as ações contra os iemenitas e as sinalizações a seus patrocinadores. Nesse sentido, o emprego do B-2 é central. O bombardeiro tem grandes capacidades de ataque, e já foi usado em outubro para destruir bunkers houthis.
Historicamente, são empregados também como forma de ameaça, tendo sido baseados em Diego Garcia em 2020 e na Austrália em 20222 em momentos de crise com a China.

A base no Índico, na possessão britânica das ilhas Chagos que será devolvida às ilhas Maurício, mas permanecerá sendo operada por Londres em conjunto com Washington, é uma escolha estratégica.

Com seus aviões-tanque, caças e bombardeiros americanos podem percorrer sem problemas os 3.800 km até a costa iraniana e o quanto mais for necessário sobre o país. Já Teerã não consegue atingir Diego Garcia com seus atuais mísseis balísticos, que têm alcance máximo de 2.000 km a 3.000 km.

A movimentação de Trump é mais uma contradição com seu discurso de campanha, em que defendeu o desengajamento americano daquilo que chama de “guerras inúteis” pelo mundo.

É uma posição que provoca fissuras, como mostrou o vazamento de conversas da cúpula de seu governo, que adicionou sem querer um jornalista da revista The Atlantic a um grupo de troca de mensagens.

Comentando as novas ações contra os houthis, o vice J.D. Vance questionou se Trump tinha total noção do que elas significariam em termos de sinalização política para sua base. Foi voto vencido.

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