Por Augusta Lunardi

No interior do Espírito Santo, uma rua estreita no distrito de Guaraná, em Aracruz, concentrava algumas das principais empresas brasileiras de fabricação de arcos de violino: Arcos Brasil, Archets Brasil, Bogen Schaeffer e Horst John & Co. O polo capixaba havia se consolidado nas décadas de 1970 e 1980, quando o comerciante alemão Horst John se estabeleceu na região e passou a enviar jovens locais à Europa para aprender a arte da archeteria.

Segundo as autoridades brasileiras, o que parecia um polo artesanal especializado escondia um sofisticado esquema de extração e comercialização ilegal de Paubrasilia echinata — a árvore que dá nome ao país e que figura entre as mais ameaçadas da Mata Atlântica. A madeira avermelhada da espécie é considerada a matéria-prima ideal para arcos de instrumentos de corda, movimentando entre US$ 5 mil e US$ 10 mil por peça no mercado internacional.

O esquema funcionava por meio de fraude na documentação florestal. A legislação brasileira proíbe, desde 1993, o corte do pau-brasil nativo e a exportação de sua madeira em estado bruto. Em 2006, o cerco se fechou com a inclusão da espécie no Apêndice II da CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção). Para operar legalmente, as empresas deveriam utilizar apenas estoques históricos cortados antes dessa data. Fiscais do Ibama descobriram, a partir de 2018, que as empresas inseriam informações falsas nos sistemas oficiais para que seus estoques nunca diminuíssem no papel — enquanto eram renovados com madeira extraída ilegalmente do Parque Nacional do Pau-Brasil, na Bahia.

Em 2021, a Polícia Federal deflagrou as operações Ibirapitanga I e II, que resultaram na apreensão de mais de 230 mil varetas, no indiciamento de 32 pessoas e na descoberta de uma rede comercial estendida por 34 países. Uma planilha analisada pela reportagem lista 220 nomes conectando produtores brasileiros a compradores em quatro continentes.

Apreensões em Aeroportos e a Pressão por Regulamentação
Parte do comércio passava diretamente pelos aeroportos. Em setembro de 2021, o fabricante Marco Raposo foi detido no aeroporto de Guarulhos com 208 arcos na bagagem, a caminho da Suíça. O processo foi arquivado e Raposo foi inocentado na esfera judicial, mas o caso segue na esfera administrativa. Sete meses depois, foi interceptado novamente com 114 arcos e 120 varetas rumo a Londres.

O comerciante italiano Francesco Marano foi interceptado duas vezes em 2022: em Viracopos (137 varetas sem rastreabilidade no sistema DOF) e no Rio de Janeiro (70 varetas) com destino a Cremona, na Itália. No mesmo período, autoridades apreenderam 83 arcos atribuídos à Horst John & Co e 25 da Bögen F. Schaeffer por falta de licença de exportação.

Em setembro de 2022, a Polícia Federal concluiu que multas e suspensões não haviam interrompido o fluxo. O movimento que se seguiu envolveu a reorganização institucional do setor.

Felipe Bernardino Guimarães, analista ambiental do Ibama e coordenador da Operação Dó Ré Mi, pontua a atuação das empresas: “Contrataram assessoria de imprensa, atuaram junto a políticos no Espírito Santo e em órgãos como o Ministério da Agricultura para redefinir a imagem do setor.”

A Atuação da ANAFIMA e o Debate na CITES
Diante do cerco regulatório, fabricantes buscaram a Associação Nacional da Indústria da Música (ANAFIMA), presidida por Daniel Neves.

A atuação da entidade passou a focar na defesa da rastreabilidade e na transição para o uso exclusivo de madeira de reflorestamento. Em abril de 2024, Neves publicou artigo na revista internacional The Strad defendendo regras mais rígidas e o apoio à inclusão da espécie no Apêndice I da CITES para populações nativas, desde que preservada a exploração regulada de plantios comerciais certificados. Essa posição foi formalizada na Carta de Vitória, em novembro de 2024, assinada por órgãos ambientais, parlamentares e entidades do setor.

Sobre alegações registradas na apuração a respeito do financiamento de agendas institucionais por parte de fabricantes investigados, Daniel Neves nega expressamente a existência de qualquer contrato, repasse pessoal ou contratação:

“Não houve contratação, não houve contrato e não houve pagamento a mim. A participação da ANAFIMA ocorreu em defesa de posições que a associação já havia adotado e tornado públicas. A proposta de restrição à madeira nativa aprovada na CITES partiu do próprio Estado brasileiro.”

— Daniel Neves, presidente da ANAFIMA.

O resultado da conferência da CITES fixou cota zero para a exportação de pau-brasil de origem silvestre, proibindo o comércio internacional de madeira nativa e derivados — exigindo rastreabilidade total para qualquer material oriundo de manejo.

Paralelamente, o Projeto de Lei 3284/24, de autoria do deputado federal Evair Vieira de Melo (Republicanos-ES), avança na Câmara dos Deputados. O texto autoriza e regulamenta o cultivo comercial de pau-brasil, estabelecendo exigências de rastreabilidade da extração ao produto final.

Plantios Comerciais e Rastreabilidade Tecnológica
No sul da Bahia, produtores testam o cultivo de pau-brasil consorciado ao cacau no sistema cabruca. O agricultor Edmond Ganem cultiva cerca de 7 mil árvores em duas fazendas. “A dificuldade concentra-se na burocracia para obtenção das autorizações de corte junto aos órgãos estaduais”, relata.

A viabilidade técnica do pau-brasil de reflorestamento é estudada na Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), sob coordenação do professor Daniel Piotto. A pesquisa, financiada pela International Pernambuco Conservation Initiative (IPCI) e pelo Bezos Earth Fund, analisa a densidade e a elasticidade da madeira cultivada.

Piotto defende que a produção sustentável é viável, mas ressalta a necessidade de mecanismos tecnológicos para evitar a lavagem de madeira nativa:

“A saída para garantir a legalidade do mercado está na adoção de sistemas robustos de rastreabilidade, como a espectrometria e a análise por infravermelho, aliadas à fiscalização das autorizações de corte.”

— Daniel Piotto, pesquisador e professor da UFSB.

Enquanto a Europa concentra grande parte da demanda por arcos de alta qualidade — como nas oficinas de Cremona, na Itália —, o mercado global passa a exigir garantias documentais de origem. A consolidação de sistemas de certificação digital e a regulamentação dos plantios comerciais definem agora os rumos da preservação da espécie e da continuidade da archeteria no Brasil.